voltar - Crônicas do Paulão

HERODES EM BELÉM

O que acontece no interior de uma Santa Casa, em uma unidade neonatal, onde recém-nascidos morrem feito moscas? Que administração é essa, que se omite diante de tantas mortes prematuras sem nada fazer? E as autoridades do Estado? Onde estão? Devemos, em uníssono, condená-los por homicídio doloso? Afinal nascemos frágeis e dependentes de um adulto. Desde os tempos das cavernas é assim. Houve um tempo na História, que medidas sanitárias eram impensáveis. Morria-se por absoluta falta de conhecimento prático. Sobreviviam apenas os fortes ou sortudos. Mesmo com toda a tecnologia do século XXI, esses pequeninos não tiveram chance de defesa, nem mesmo de pleitear algo neste mundo, de se reconhecem como seres pensantes. Morreram anônimos, vítimas dos maiores descasos... Foi isso que presenciamos nos últimos dias, com imagens aterradoras, vindas de Belém, capital do Pará, mais precisamente da Santa Casa de Misericórdia da cidade, onde cerca de trinta e dois recém-nascidos morreram, devido às péssimas condições de higiene do local, onde até gatos foram flagrados passeando livremente. Nada contra os gatos, eles são irracionais...

Aliás, as chamadas "Santas Casas" são, em sua grande maioria, fontes de grandes problemas, sobretudo de ordem financeira. Rombos no orçamento, desvios de verbas do SUS e outras lambanças. É raro, muito raro, encontrar uma dessas instituições com boa saúde financeira, ou que não ostente cicatrizes horrendas, resultantes de más administrações, geralmente impunes ou acobertadas por membros da sociedade, pois muitos provedores possuem "status" de beneméritos. São aqueles cidadãos acima de qualquer suspeita. Aí é que mora o perigo. E quem paga pela impunidade é a população, obrigada a mendigar atendimento, ser clinicada no corredor, na rua, conviver com filas enormes, ou aguardar meses por um exame. Isso sem falar que muitas instituições são comandadas por grupos religiosos. Melhor parar por aqui mesmo.

É como se o próprio Herodes, o Grande, rei da Judéia fosse o provedor deste lugar macabro, esta Santa Casa dos infernos. Já pensou? Ele mesmo! Herodes, aquele que para assar o leitão mandou queimar a casa. Ordenou o massacre dos inocentes, na vã esperança de liquidar o Messias que era anunciado aos quatro ventos, como o salvador dos homens. Herodes preencheria todos os requisitos necessários para prover essa tal Santa Casa. Um currículo extenso, que muito agradaria as autoridades brasileiras, especializadas em aniquilar criancinhas, seja pela transmissão de uma infecção hospitalar, seja pelo chumbo quente disparado de alguma arma automática, geralmente nas mãos de algum soldado mal preparado, mal remunerado. Isso quando não deparamos com uma mesa cheia de dinheiro apreendido após mais um esquema de corrupção sendo engendrado. Podemos estabelecer uma ligação de todos esses fatos? É muito provável.

O problema da Santa Casa de Misericórdia de Belém, não é um problema do Estado do Pará, é um problema do Brasil. A população paraense é forte e já deu provas históricas de resistência. Durante o período regencial (1831 a 1840), a província do Grão-Pará sublevou-se. O povo pobre tentou acabar com a ganância da elite local e o descaso da corte no Sul maravilha. O movimento denominado Cabanagem, foi duramente reprimido pelas autoridades imperiais. Os cabanos sofreram cruel perseguição e foram aniquilados pelo governo. Historiadores falam em trezentos mil mortos. Isso no início na década de 30 do século XIX. Era o facão da Regência, ceifando vidas sem piedade. Não podemos esquecer de outro massacre, em Eldorado dos Carajás (1996), onde policiais metralharam membros do MST diante das câmeras de TV. Episódio que chocou o país, pois alguns camponeses apresentavam ferimentos à bala na nuca, revelando possíveis execuções sumárias. Soma-se a isso, o eterno conflito agrário entre grileiros e militantes ligados à Pastoral da Terra, geralmente resultando em assassinatos, sob o olhar complacente das autoridades.

Nestes casos, os adultos ainda puderam resistir. Já as criancinhas... Herodes passeia por aí. Cuidado para não encontrá-lo na próxima esquina ou no corredor de algum Hospital.

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