
DEBATE ENTRE CANDIDATOS À PREFEITURA DE
MOCOCA
Lá
pelos lados da Serra de São Benedito, nordeste mocoquense, assomavam-se
à negra noite raios e mais raios. Nunca os tinha visto em tão
grande número, nem tão bonitos. Pensei... muita água
haverá de rolar daqui a pouco...
Estava feliz com a possibilidade de assistir, logo mais, ao debate dos
quatro candidatos a prefeito da minha — nossa — cidade e
ver quais plataformas são as melhores para que Mococa volte a
crescer em ritmo e qualidade de vida aceitáveis e afinadas com
esta nova era social que se avizinha e se anuncia a passos tão
largos.
Este foi o cenário externo da noite do Fórum de Debates
dos candidatos a prefeito de Mococa, com organização do
Grupo TUMM, Olho D´Água e FUNVIC – Fundação
Vida Cristã - e que leva o sugestivo nome de “Deguste
esta idéia”, no agradável e belo auditório
do Colégio Maria Imaculada.
Não fui ainda a nenhum comício, mas na platéia,
como sempre, pouco público, a maioria das pessoas ligadas, de
alguma forma aos candidatos, e uns — bem poucos — diletantes,
como eu, que estavam lá como simples cidadãos, querendo
apenas saber quem vai administrar nossa cidade e como, com que dinheiro,
com que projeto de governo.
Todos
os candidatos estavam presentes e o formato do debate foi bem aos moldes
dos que vemos pela tevê. Formulam-se perguntas para determinado
candidato e este tem alguns minutos – neste caso, três minutos
– para tentar responder o que se espera dele durante quatro anos.
Quatro anos em três minutos! Bom lema para uma administração
progressista, mas isso, creio que um governador paulista já lançou
mão outrora. Algo do tipo "Mococa tem pressa". Do formato
original das grandes redes de tevê, apenas não houve aquele
delicado — mas delicioso, também — momento onde candidato
pergunta pra candidato, tentando espinafrar a vida do adversário
e vê-lo em maus lençóis. No atual cenário
político mocoquense, creio que tal momento do debate não
seja de bom-tom, o que, efetivamente, a Tuni observou bem e por isso
mesmo deve ter sabiamente evitado. Os candidatos são amigos,
colegas de Câmara de Vereadores, cada um à sua maneira
já foi político, então, não cabem, de fato,
espinafrações mais contundentes. Dispensáveis,
portanto. Ponto pra comissão organizadora.
Após a abertura oficial, com a entonação do Hino
Nacional, com mão no peito e tudo, a tradicional abertura, onde
cada candidato se apresenta, oferecendo suas qualidades como cidadão
e como homem público. Já neste momento, dá pra
perceber quem tem e quem não tem cacife para gerir uma cidade
encalacrada urbanística e financeiramente como a nossa. Pelo
menos, na minha ótica, percebi quem está no páreo
e quem não.
Braz Mariano foi o primeiro sorteado e, visivelmente com a voz embargada,
diz da sua alegria e satisfação de estar ali, cuja intenção
é e sempre foi prestar serviços os mais relevantes possíveis
para a comunidade. Enfatiza a sua fé cristã e aposta na
sua Igreja e nos seus fiéis para levar adiante seu projeto administrativo.
Juninho Maziero, o segundo a se apresentar, começa lembrando
da qualidade moral do seu vice, Eduardo, de seus — dele, Juninho
— 4 mandatos consecutivos como vereador, e que está na
política por puro idealismo, terminando por exemplificar sua
possível administração baseada na vasta experiência
profissional à frente de sua empresa, reforçando a idéia
da candidatura planejada, séria, com isso apostando numa melhor
qualidade de vida para a população.
Toni Naufel, o terceiro sorteado, cumprimenta a organização
do evento, perpassa rapidamente por seu passado político à
frente da Câmara, e explica que o PSDB o convocou devido às
qualidades apresentadas pelo seu governo (1993-96), e pela expressiva
aprovação dos funcionários (ele menciona 90%),
particularmente os da Educação, departamento ao qual estou
afeto e confirmo, tanto a aprovação (mas não tão
expressiva assim) dos funcionários quanto a excelência
que a Educação teve na sua administração.
Por fim, menciona o fato de ele, obstetra, cuidar de duas vidas ao mesmo
tempo, então, ninguém melhor que ele para administrar.
Bim Taliberti foi o último a se apresentar e não deixou
mais barato. Médico, também, lembrou que foi Diretor do
Departamento de Saúde (2001), é atualmente vereador e
que sua família toda fez sua vida em Mococa, portanto, tem uma
espécie de dívida com a cidade, por isso aceitou ser candidato.
Como médico, sabe muito bem sobre a sua área de atuação
e os inesgotáveis problemas que a saúde pública
enfrenta; menciona descentralizar dois importantes bairros, a Cohab
II e a Santa Rosa, tendo em vista serem estes bairros extremamente inchados,
carecendo se auto-gerenciar. Atrelada à Saúde, vem a Educação,
departamento que faz questão de apontar direções
bastante generosas e importantes, como a inclusão de psicopedagogos
para casos especiais de apredizagem.
As
rodadas de perguntas tiveram a seguinte seqüência: Saúde,
Promoção Social, Juventude, Educação e Outros
Temas.
SAÚDE
Toni
fala sobre o respeito ao dinheiro público, quanto ao uso dele
na Saúde. Cita números alarmantes — seis mil diabéticos,
dez mil hipertensos, e altas taxas de tireoidismo —, e ressalta
problemas que se arrastam por anos, como a falta de medicamentos, cujo
controle inadequado de distribuição, torna tudo ainda
mais cruel, e que a informatização é a necessidade
mais premente, cadastrando a população carente, evitando,
desta forma, a desumanização no atendimento aos verdadeiramente
necessitados.
Juninho também caminhou por este viés, mencionando a informatização
como forma segura de cada vez menos injustiças cometidas. Disse
também da necessidade de capacitação profissional
das pessoas que trabalham junto ao paciente, e quer, em sua administração,
um NAI em cada bairro.
Braz Mariano quer priorizar casos de emergência, colocar pessoas
certas no lugar certo, ou seja, mais atenção ao paciente
e diminuir o tempo (aumentar a freqüência) entre os atendimentos.
Bim fala com propriedade sobre o assunto. Como Diretor de Saúde,
sabe muito bem nas falhas no sistema e a falta de equipamento e mão-de-obra
especializada. Pensa que se não há médicos, não
há necessidade de se manter um NAI aberto, mas que isto não
é a melhor opção, e sim haver médicos e
enfermeiros em tempo integral para atendimento à população
de cada bairro; para isso, fará esforços para conseguir
parcerias e adquirir mais ambulâncias e contratação
de mais funcionários.
PROMOÇÃO
SOCIAL
Braz
foi o escolhido para responder sobre as pesadas multas que a prefeitura
paga por manter no antigo curtume famílias em condições
insalubres, morando em casas sem infra-estrutura. No meu entender, Braz
não respondeu a esta pergunta, mas disse que em sua administração
ele iria fazer de tudo para diminuir tais bolsões de pobreza.
Bim convocou as ONGs, entidades não-governamentais e a população
para governar juntos. Neste momento, a gestão participativa já
toma corpo na fala dos candidatos e será a tônica daí
por diante até o final do debate. Bim quer descentralizar as
áreas sociais, não praticar um atendimento assistencialista
e espera parcerias fortes entre empresas, população e
administração pública.
Juninho foi perguntado sobre projetos habitacionais. Lembra que faz
anos que Mococa não tem um programa de grande monta. Segundo
ele, duas mil famílias esperam por uma casa própria. Que
vê com bons olhos o – pequeno – projeto na estrada
Mococa-Canoas, que irá contemplar cerca de 50 famílias.
Irá buscar, junto aos governos estadual e federal, assim como
o projeto do CDHU, que oferece cestas básicas de construção,
projetos que atendam mais famílias.
Toni foi perguntado sobre recursos aos projetos sociais. Mencionou várias
entidades que hoje promovem excelentes trabalhos sociais em Mococa,
como o Grupo TUMM, Beija-Flor, Casa Abrigo, Rotary, Bolsa-Família
e Projeto Guri, mas que ainda é pouco e procurará trazer
mais recursos tanto para os já existentes como outros que se
implantarão futuramente. Ao final da sua fala deste bloco, Toni
deu mostras de seu estilo fleumático e decidido, “cutucando”
os outros candidatos, que estão dentro da Câmara de Vereadores,
como é que eles cobraram do atual prefeito ações
sociais mais contundentes durante as duas últimas administrações.
JUVENTUDE
Ao
Juninho coube a pergunta se da sua administração faz parte
a criação de uma Secretaria da Juventude.
Juninho é sincero e diz sobre o enxugamento da máquina
pública, com cortes de cargos de confiança para diminuir
a séria crise financeira por que Mococa atravessa. Diz que sim,
que haverá momento de reflexão sobre a criação
da tal secretaria.
Bem, não vejo onde se cortar, e se cortar, será mesmo
que tais valores economizados seriam suficientes para a criação
de uma Secretaria da Juventude, com todos os problemas que nossa juventude
atravessa, sem emprego, sem cultura, sem esporte e lazer? Melhor não
seria buscar junto a governos estadual e federal recursos que sejam
melhor administrados e aí sim, suficientes para a implantação
desta secretaria, já tão evidentemente em falta em nossa
cidade? (nota do editor)
Ao Bim Taliberti foi perguntado sobre o incentivo às práticas
e eventos culturais entre os jovens. Bim lembra que o próximo
prefeito terá, ao seu favor, uma Casa de Cultura (no prédio
da antiga Industrial, reformada e com salas-ambiente para oficinas de
pintura, desenho, fotografia, música, escultura, um canto especialmente
criado para happy-hour, com café-bar, palco para apresentações
de grupos musicais e teatrais e, no piso superior, amplas salas para
exposições de artes plásticas e duas, multiplex,
para apresentações de pequenos e médios concertos
– nota do editor), que será importante centro de disseminação
da cultura tanto popular quanto erudita. Quer implementar também
– e nisso concordo com ele – a cultura no meio rural tanto
quanto na cidade. Quer fazer com que o artista, o folclore e os músicos
se evidenciem.
Para isso basta que o Teatro Municipal — também em
reforma — esteja aberto o tempo todo, a exemplo da célebre
administração do Lu Amato, que promoveu verdadeira vaga
heróica da cultura em Mococa. Lembro que naquele momento especial
da vida cultural de nossa cidade, muitos grupos musicais se formaram,
além de vários grupos teatrais, literários e outros
tantos artistas plásticos apareceram. Para isso também
lembro que não basta trazer artistas de renome para dentro dos
espaços expositivos da prefeitura. Tal momento de efervescência
cultural também aconteceu na administração Chico
Guerra e Toni Naufel. Mas há que se mostrar também os
artistas da terra. E não apenas o artista erudito, o artista
conhecido. Há que se evidenciar os ditos off-siders, aqueles
artistas que praticam determinados tipos de arte que não são
muito pontificados numa cidade como a nossa. Só assim o incentivo
à prática cultural e artística dos jovens se sacramentará.
Lembremo-nos da frase mais que providencial, de Leon Tolstoi: “Se
quer ser universal, que fale da sua aldeia.” E o que é
mais universal que nossa aldeia senão os seus próprios
aldeões? - nota do editor
Toni respondeu sobre o mercado de trabalho para o jovem. Foi feliz,
ao dizer que temos em Mococa, nos setores comercial e agroindustrial
cerca de 1450 empresas! Ora, se ao investir em melhor capacitação
do jovem isso “mexer” positivamente de alguma forma com
os donos destas empresas e estes abrirem novas vagas, criar-se-iam pelo
menos três ou quatro empregos em cada uma destas empresas. Em
números, teríamos, logo de cara, quase cinco mil empregos
em pouco tempo! Continua sua observação com uma questão
simples, mas perfeita: se chega um empresário em Mococa, vê
alegria, ordem e segurança por aqui, lógico que ele irá
estabelecer sua empresa. Caso contrário, vai tentar outras praças,
como já aconteceu anteriormente em nossa cidade, em que perdemos
a chance de termos boas empresas e até mesmo um shopping
center. Mas para que o empresário seja “tentado”
a ficar, deveremos investir tanto na estrutura física quanto
na social. Conclama escolas, como Rotary e Artesanato, a preparar melhor
os jovens para um mercado de trabalho cada vez mais específico
e exigente.
Braz respondeu sobre ajuda ao universitário que estuda fora do
município. O candidato lembra que há uma lei municipal,
onde os poderes públicos têm de incentivar o jovem ao estudo,
ajudando em até 50% dos ônus encaminhados para transporte
público.
EDUCAÇÃO
Perguntado
sobre se conhece a Biblioteca Municipal, Juninho reconhece que ela mantém
livros velhos e obsoletos, não há sequer a assinatura
de uma revista semanal ou jornal – há, sim, jornais
diários na Biblioteca, mas não sei se por diletantismo
de uma boa alma ou se por assinatura que a administração
atual mantém – nota do editor. Engatilhando esta questão,
ele menciona a transformação do Departamento de Educação
em uma Secretaria de Educação, com departamento pessoal,
departamento de compras e equipe técnica próprias. Com
isso, as escolas e os funcionários da Educação
teriam autonomia mais que necessária, tendo em vista a imensidão
física e logística do Departamento em si. Finaliza lembrando
números ruins para a nossa Educação, particularmente
na Educação Básica Municipal — apenas
algumas escolas, é verdade, deixemos aqui muito bem rubricado
isso —, com umas das piores notas em recente avaliação
em nível federal.
Toni foi perguntado sobre que solução dará à
falta de vagas nas creches. O candidato menciona 600 crianças
sem creche, mas que com uma atitude simples, a de criação
de uma creche por ano e que cada creche, em tese, abrigaria cerca de
150 crianças, em três anos todas estas crianças
estariam com vagas asseguradas. Mas o número apresentado pelo
Toni foi imediatamente refutado e rebatido pelo Bim, que asseverou serem
1020, as vagas necessárias. Pior ainda. Precisamos de, não
três, mas SETE creches nos próximos quatro anos. Sete em
quatro, mas um mote ou um número cabalístico, na pior
das hipóteses – nota do editor.
Bim acha que as escolas públicas têm de ser melhoradas,
e a exemplo do Juninho, quer transformar os Departamentos e Educação
e Saúde em secretarias.
Braz respondeu sobre como transformar Mococa em referência na
qualidade de ensino universitário. Mas todos sabemos que
esta pergunta é de difícil resposta, já que nem
universidade temos em Mococa ainda. Neste caso, a vizinha São
José do Rio Pardo avançou e muito com relação
a Mococa, oferecendo aos estudantes bons e variados cursos - nota do
editor..
OUTROS
TEMAS
Bim
quer que na sua gestão o povo seja ouvido, como preconiza uma
gestão participativa na sua verdadeira acepção
e no sentido mais lato da expressão.
Juninho acredita que a criação de Conselhos em cada departamento
seja importante, com pessoal capacitado, e uso regradamente não-político.
Braz confia na melhoria dos poliesportivos, da disseminação
de práticas esportivas populares, campeonatos de futebol amador,
esporte e atividade física para idosos como caminho para uma
população mais saudável.
Toni é contemplado com uma pergunta que, de alguma forma, ele
já havia respondido, que é o desemprego.
O que talvez o Braz não saiba é que nos Jogos Regionais,
uma das maiores vitrines do calendário paulista da Secretaria
de Esportes, Mococa tem tido uma participação lamentável,
medíocre e triste. E não estou falando nas modalidades
que levamos todos os anos para os Jogos. Estas modalidades, que são
o Judô, Vôlei Feminino, Basquete, Natação,
Futsal feminino, Bocha e Capoeira, estamos indo muito bem, obrigado!
Mas em números: são 26 modalidades de esportes, inclusive,
Atletismo PPD, portadores de dificuldades especiais, mas competimos
quase todos os anos em APENAS SETE (conta de mentiroso) modalidades.
Cadê os enxadristas, o atletismo, o ciclismo, o tão propalado
futebol, malha, cadê a ginástica artística, cujas
meninas estavam indo muito bem com apenas seis meses de treinos e estranhamente
a administração acaba com o grupo? Cadê o tênis
de mesa, o tênis, o vôlei de praia? E o judô oferecido
pela administração, em que jovens com problemas de comportamento
estavam se encaminhando para vida melhor através do esporte,
e de repente, sem mais nem menos, o judô é banido do Derla?
Agora, falar em criar desportos populares, novos complexos poliesportivos,
pra quê? Se vão acabar sendo abandonados, todavia... não
precisamos de mais locais, precisamos de gente para praticar os que
já temos e mais gente ainda para treinar os que querem ser atletas
e representar condignamente Mococa em Jogos Regionais, como fizeram
este ano em Rio Claro, o Judô, Vôlei Feminino, Basquete,
Natação, Futsal feminino, Bocha e Capoeira – nota
do editor
Quase ao final, um clima brandamente tenso entre Toni e Braz teve foco,
pois houve alguns atritos com relação a algumas falas
durante o debate. Mas nada que arranhasse a ética nem a atitude
pacífica dos candidatos. Nada que parecesse com os raios e trovões
que se avistavam lá pelos lados de São Benedito. Eita
santo forte, o São Benê, não deixou a peteca cair.
Mas o Toni deu uma boa idéia, de levar este debate, inclusive
com os vices, para a tevê.
É...
muitos raios ainda haverão de ser vistos, caso este debate se
desenrole. E muita água vai rolar, porque este debate, embora
muito bem estruturado e organizado, ficou devendo. Devendo mais calor
de um debate mesmo, perguntas menos formais, retóricas e mais
incisivas. Muito morno, muito ainda há que se debater com relação
aos problemas imensos de nossa cidade. Por exemplo, nem se falou em
segurança, nem em Plano Diretor. Bem que o Toni tentou falar
do Plano Diretor de sua administração — do qual
participei, como diagramador e revisor da cartilha e posso assegurar,
já que li muitos outros Planos Diretores anteriores e o atual,
este, do Toni, era muito amplo e quase definitivo, no meu entender —,
mas aí, houve a tensão, e...
Bem. Estaremos esperando por uma nova rodada de debates. Na tevê,
no rádio, na pracinha da Metalúrgica, nas salas de aula,
nas linhas de montagem das empresas, na sauna, no balcão do bar
do Zé... o que queremos, o que o povo mocoquense quer é
que sejamos bem administrados, finalmente.
Fotos
e texto: Luiz Antônio Scarparo Maciel
e-mail: Massa
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